Acordo e não tem nenhum barulho. Esta era uma das coisas que mais me irritava quando eu era criança: acordar e não escutar mãe, pai, latido de cachorro, canto de passarinho ou grito de papagaio. Aí eu voltava a dormir, esperando algum barulho pra me acordar.
Olho para a janela e vejo um tempo fechado, sem sol e com muitas nuvens. Não sei como, mas eu parei de gostar de dias nublados. Concordo com o senso comum e com a velha história romântica de que dias nublados são dias tristes. Curioso, porque tanta coisa ruim já me aconteceu em dias muito ensolarados e eu, por algum motivo obscuro, continuo gostando deles.
Um passarinho começou a cantar. Não é daqueles passarinhos da Disney, amarelinhos ou azuis que cantam sonatas e óperas. Pra falar a verdade, eu nem sei como que é esse passarinho. O canto dele não é muito bonito. Aliás, eu nem sei se podemos chamar aquilo de canto. Mas ele me faz lembrar daqueles fins de semana, em que depois do almoço todos dormem e só ele e eu que permanecíamos acordados. Eu brincando na solidão e ele tantando me deixar um pouco menos sozinha.
Meu avô que gostava desse passarinho. Não sei exatamente o porquê, afinal o canto dele não era lá essas coisas. Meu pai que gosta de contar essas coisas. Talvez eu devesse prestar um pouco mais de atenção nelas e quem sabe um dia eu descubro, o porquê desta e de tantas outras coisas.
A casa começa a acordar. Escuto os barulhos de quem se levanta. Os outros passarinhos começam a cantar e os cachorros já latem respondendo a qualquer bobeirinha, só pra avisar que eles estão ali e que eu não sou a única que está acordada.
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[...] já que só o que dá pra ver é um pouco de luz a oeste. Tá tudo nublado, uma coisa linda. (A Karol decidiu que não gosta mais de dias nublados, mas eu sou tão apaixonado por eles quanto sempre [...]